quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Canção da Mulher


Que o 'outro' saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o 'outro' note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o 'outro' aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o 'outro' perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o 'outro' goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o 'outro' não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o 'outro' sinta quanto me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o 'outro' seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o 'outro' não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o 'outro' ainda assim me ache linda e me admire.

Que o 'outro' não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o 'outro' entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa:
vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.
Lya Luft